quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Arte e Estética dos Media - Comentário ao Gabinete do Dr. Caligari

Estreado em 1920, nos dramáticos e conturbados anos que a Alemanha viveu após o fim da 1ª Guerra Mundial, o filme Das Cabinet des Dr. Caligari é hoje considerado, reconhecidamente, como um marco fundamental da influência expressionista no cinema alemão e uma obra-prima do cinema mundial.

Postulado formalmente por Wilhelm Worringer, em 1908, o Expressionismo opunha-se à lógica impressionista então vigente no mundo da arte, defendendo uma concepção do mundo alicerçada no confronto entre a necessidade de respeitar a essência dos objectos e a subjectividade, em que a forma não deriva da realidade exterior, mas da realidade interna, das profundezas da alma humana, tendo a abstracção por vector fundamental. Esta perspectiva afirmou-se progressivamente nas diversas áreas artísticas, mas só já muito tarde, perto do seu declínio, chegaria ao universo do cinema, aspecto que terá contribuído para o facto de não ser possível falar de uma escola expressionista do cinema alemão, nem nenhum dos seus intérpretes se assumir declaradamente como expressionista.



Todavia é com O Gabinete do Dr. Caligari que esta influência expressionista se manifesta de forma mais evidente no cinema, abrindo caminho para outras obras fundamentais dos anos 20, também de inspiração expressionista (ou “caligarista” conforme alguns autores preferem defini-la) de que se destacam O Golem (1920) de Paul Wegener, O Doutor Mabuse (1922) de Fritz Lang, Nosferatu (1922) de F. W. Murnau ou O Museu das Figuras de Cera (1924) de Paul Leni, nas quais os seus realizadores exprimem os estados de alma dos seus personagens através do simbolismo das formas e os intérpretes exteriorizam o patético com gestos bruscos e excessivos num espaço insólito, em cenários irreais, nos quais a iluminação intervém de forma dramática, com as sombras animando os objectos cenográficos, em atmosferas opressivas em que o horror, a alucinação, e o crime são temas recorrentes.

Robert Weine

Não dispondo dos meios financeiros necessários a uma grande produção, o conhecido produtor Erich Pommer (1889-1966) perante a indisponibilidade de Fritz Lang, entregou a realização de O Gabinete do Dr. Caligari a Robert Weine (1873-1938), que decidiu apostar num tipo de filme completamente inovador, desenvolvendo o inquietante argumento[1] de Hans Janowitz (1890-1954) e Carl Mayer (1844-1944) num notável espaço cenográfico concebido por Hermann Warm, Walter Reimann e Walter Röhrig, no qual se movimentam actores estranhamente caracterizados que dão corpo a personagens que questionam a ordem, a hierarquia e a moral instituída, tudo servido através de uma narrativa não linear em que no final o espectador tem que reinterpretar toda a história.[2]

Imagens de O Gabinete do Dr. Caligari

O filme gira em torno da descrição que um estudante, Francis (Friedrich Feher) faz a um seu conhecido dos estranhos acontecimentos por que ele e a sua noiva Jane (Lil Dagover) acabavam de viver. Um excêntrico personagem, o Dr. Caligari (Werner Kraus) chegara recentemente à feira anual da cidade de Holstenwall com uma estranha atracção: Cesare (Conrad Veidt) um sonâmbulo com o poder de prever o futuro. Estranhas mortes começam a ocorrer na cidade após a chegada do Dr. Caligari, entre os quais um amigo de Francis que interrogara Cesare acerca do seu futuro e vira anunciada a sua morte para a madrugada seguinte. Suspeitando do envolvimento de Caligari e Cesare na morte do seu amigo, Francis decide vigiá-los. Quando na noite seguinte, obedecendo a ordens de Caligari, Cesare se dirige à casa de Jane para a assassinar, ao vê-la dormindo arrepende-se e decide raptá-la. Alertados pela agitação de Jane, os habitantes da casa lançam-se na perseguição de Cesare que vendo-se perdido abandona Jane e acaba por morrer. Francis que entretanto perseguira Caligari até a um manicómio acaba por concluir que ele era afinal o seu director. Empenhado em desmascará-lo, Francis consegue convencer os enfermeiros do hospital da loucura do director através de referências que este fazia, no seu diário, a um monge italiano do século XI com o nome de Caligari que utilizava um sonâmbulo para assassinar as suas vítimas. Perante tal revelação o louco director acaba fechado numa cela do hospital psiquiátrico. No entanto, Francis ao terminar a sua história, encontra-se no pátio do manicómio que descrevera e junto a si estão Jane e também Cesare. Quando vê Caligari a atravessar o pátio, Francis tenta atacá-lo mas é prontamente detido pelos enfermeiros e encerrado na mesma cela em que antes estivera Caligari. Este deslocando-se à cela e vendo a perturbação do doente, tenta acalmá-lo e termina comentando para um dos enfermeiros a sua convicção de que brevemente lhe seria possível curar Francis da sua loucura.





Tal como nos outros filmes deste período o som está formalmente ausente. Contudo podemos intui-lo, percepcioná-lo através do ritmo contido na imagem, naquilo a que muito adequadamente João Mário Grilo designa por cinema-surdo. Poderemos hoje interrogar-nos como teriam Weine e os seus criativos lidado com a dimensão sonora, caso os meios técnicos necessários estivessem então disponíveis. Ter-se-íam vergado à estéril lógica do sincronismo sonoro ou teriam também utilizado o som para a criação de um imaginário sonoro em contraponto com a montagem visual, conforme sugerido por Eisenstein ou Pudovkin?[3] Certo é que a ausência de som, reforçando a ambiguidade de leitura do filme, contribui decisivamente para aumentar o mistério e a inquietude do seu ambiente. Livre das amarras impostas pelas palavras e pelos sons naturalistas, o Gabinete Dr. Caligari permanece como obra singular da produção cinematográfica de todos os tempos, sendo certamente um dos mais notáveis objectos estéticos da história do cinema.
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[1] - A cópia do guião pode ser consultada na ligação http://www.aellea.com/script/qCALIGARI.htm
[2] - Hermann Harm (um dos cenógrafos do Gabinete do Dr. Caligari), no 3º episódio da série Cinema Europe - The Unchained Camera, refere que o realizador Robert Weine, após analisar a forma como o filme deveria ser construído, terá afirmado: "The film must be crazy from the beginning in every way. Nothing must be normal and then it will work. Whether the press then tear us apart afterwards or whether it is a great success, we shall see. But either way it's worth it."
[3] - GRILO, João Mário, As Lições do Cinema, Lisboa, Edições Colibri, 2010


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Programação de Artefactos Digitais - Primeira Imagem de Avaliação

A pouco e pouco o código vai-se tornando mais complexo... Na hora de apresentação da primeira imagem para avaliação, tempo para algo já mais sofisticado. O algoritmo é relativamente simples (rotação e redução de 12 e de 6 triângulos) mas produz um efeito muito vistoso. As imagens dão conta de algumas das variantes consideradas no exercício.



A programação é acessível e os resultados são muito interessantes mesmo quando ainda se estão a dar apenas os primeiros passos na aprendizagem. Desde os tempos do já muito velhinho ZX Spectrum que não encontrava algo tão acessível e interessante como ferramenta de programação gráfica. A seu tempo por aqui aparecerá o código relativo a estas imagens.




Programação de Artefactos Digitais - Raios Coloridos

Prossegue o processo de aprendizagem em Processing. Desta vez, um pequeno exercício de utilização de cores através de um algoritmo muito simples que através do gerador de números aleatórios, define três pontos de partida e a partir desses pontos irradia traços também de cores aleatórias. Para quem tenha mais curiosidade junto fica a respectiva listagem.



/* Raios de cores aleatorias */
int m, n;
float x0, x, y0, y, r, g, b;

size(250,250);
background(0);
smooth();

for(m=1;m<=3;m++)
{
  x0=random(0,width);
  y0=random(0,height);
  for(n=1;n<=50;n++)
  {
    x=random(0,width);
    y=random(0,height);
    r=random(0,255);
    g=random(0,255);
    b=random(0,255);
    stroke(r,g,b);
    strokeWeight(random(1,2));
    line(x0,y0,x,y);
  }
}


Para obter as imagens só com um ponto de irradiação (superior esquerda e inferior direita) basta suprimir do código os itens listados a verde.


terça-feira, 29 de novembro de 2011

Programação de Artefactos Digitais - Primeiros Passos

Depois de um algo penoso regresso ao contacto com a programação em C, iniciam-se agora as primeiras "brincadeiras" com o Processing. São, para já, apenas imagens fixas, mas em breve o panorama irá concerteza mudar, pois este é um poderoso software, cheio de boas surpresas.




Para quem ainda não saiba, o Processing é um interessante pacote de software open source que disponibiliza um ambiente de desenvolvimento (IDE) e uma linguagem de programação que permite criar imagens, animações e interações. 

Para quem fique curioso, tudo o que se precisa de saber sobre o Processing, pode ser encontrado no site oficial em: http://www.processing.org 

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Laboratório de Som e Imagem - Trabalho de Imagem Fixa

As imagens que integram o lote seleccionado para este trabalho foram obtidas com três câmaras digitais compactas, simples e de baixo orçamento: uma Sony DSC-P32, uma Casio EX-Z750 e uma Canon PowerShot A570 IS.

Todo o processamento de edição de imagem: corte e aplicação de filtros foi realizada através do software Picasa 3.0

De entre um conjunto de dezoito  imagens inicialmente  produzidas e alojadas no Flickr (http://www.flickr.com/photos/mymegamix/with/6352024378/) procedeu-se à selecção das 10 que se considera corresponderem a situações de composição e enquadramento mais interessantes.




Pelourinho 

Câmara: Casio EX-Z750
Tempo de exposição: 1/250 - Abertura: f/11.2 - Distância focal: 14.2 mm
Detalhe do remate superior do Pelourinho na Praça do Município, em Lisboa.

A imagem foi tomada em plano contra-picado, tendo o céu como fundo e criando algum dinamismo pela conciliação do fuste helicoidal da coluna com uma diagonal ascendente.



Basílica da Estrela 

Câmara: Casio EX-Z750
Tempo de exposição: 1/160  -  Abertura: f/7.4  -   Distância focal: 23.7 mm
A Basílica da Estrela vista da Rua de S. Ciro, em Lisboa.
         
Embora o tema principal surja praticamente centrado na imagem,  o facto de para ele parecerem coincidir as linhas concorrentes das partes superiores  e inferiores das fachadas de ambos os lados da rua, aliado ao contraste entre o profano e o sagrado, representados simbólica e respectivamente, pelos edifícios contemporâneos do primeiro plano e a cúpula da Basílica ao fundo, logram transformar um enquadramento aparentemente monótono e estático num conjunto agradável.
 




Capitel 

Câmara: Canon PowerShot A570 IS
Tempo de exposição: 1/500 - Abertura: f/4.5 - Distância focal: 16 mm
Pormenor de Capitel do Templo de Esculápio, em Miróbriga.
 
Imagem que procura conciliar  os aspectos meramente técnicos do tema, no caso, as características decorativas no capitel, com algum cuidado na composição e enquadramento.  O capitel apresenta-se em plano próximo, ligeiramente descentrado e a forma de parede que o suporta traça uma diagonal na imagem. A aplicação do filtro Preto e Branco reforça a sensação de antiguidade do tema e ajuda o observador a centrar-se no essencial do tema.
 




Conversadeira 

Câmara: Sony DSC-P32
Tempo de exposição: 1/125 - Abertura: f/4.0 - Distância focal: 5 mm
Conversadeira - Castelo de Leiria
 
Exemplo de uma imagem em que se procura o contraste entre o claro e o escuro, com o tema ligeiramente descentrado. Não se aplicou qualquer filtro uma vez que a luz que entra pela janela não queima a imagem e cria uma penumbra que permite apenas adivinhar o interior do compartimento.



 
Cabeças de Cavalos 

Câmara: Casio EX-Z750
Tempo de exposição: 1/200 - Abertura: f/13.8 - Distância focal: 19.7 mm
Cavalos Marinhos - Praça do Império em Lisboa
 
Plano próximo das cabeças de cavalos marinhos tomada em plano ligeiramente contrapicado. A imagem tem por centro as cabeças dos cavalos recortadas contra o fundo do céu que bordeja equilibradamente o tema.





Fim de Tarde 

Câmara: Sony DSC-P32
Tempo de exposição: 1/800 - Abertura: f/5.6 - Distância focal: 5 mm
Fim de Tarde - Praia do Magoito
 
Exemplo de uma imagem sem qualquer tratamento obtida com condições de pouca luminosidade. Mais do que o enquadramento são curiosos os diversos tons de cinzento que se complementam, bem como as diversas texturas presentes e o aspecto difuso da crista da onda.





100 Varandas 

Câmara: Casio EX-Z750
Tempo de exposição: 1/160  -  Abertura: f/10.0  -   Distância focal: 11.8 mm
Detalhe da fachada do prédio das 100 varandas - Lisboa
 
Plano contrapicado da fachada de um conhecido edifício de Lisboa, tendo como tema principal destaque a sucessão de varandas.





 Colosso 

Câmara: Casio EX-Z750
Tempo de exposição: 1/160 - Abertura: f/10.0 - Distância focal: 11.8 mm
Detalhe do Monumento aos Mortos da Primeira Guerra Mundial - Lisboa

Imagem a que se aplicou um filtro Preto e Branco e um pouco de rugosidade e na qual o personagem surge representado de forma ligeiramente sinuosa, aspecto que lhe imprime algum dinamismo, reforçado também pela representação dos músculos retesados que parecem sugerir a luta do personagem por libertar-se dos limites da imagem.





 Orvalho

Câmara: Canon PowerShot A570 IS
Tempo de exposição: 1/160  -  Abertura: f/10.0  -   Distância focal: 11.8 mm
Rosa e Orvalho
 
Plano de detalhe de uma rosa após uma noite de orvalho. Aqui o interesse da imagem reside no facto de transmitir ao observador uma imagem da rosa diferente da habitual, em que os pormenores das diversas tonalidades das pétalas e os brilhos das gotas de água assumem o papel principal.





 Eça e a Musa 

Câmara: Casio EX-Z750
Tempo de exposição: 1/160  -  Abertura: f/10.0  -   Distância focal: 11.8 mm
Detalhe do Monumento de Homenagem a Eça de Queiroz - Lisboa
 
Nesta imagem parcial do monumento, enquadrou-se o tema de forma a organizar a composição ao longo de uma linha de força (uma diagonal ligeiramente curvilínea) compreendida entre a mão da musa e a cabeça do escritor, do que resulta que o tema surja descentrado para a direita. Analisando a imagem pela regra dos terços, a cabeça de Eça surje no terço superior direito e a da musa no cruzamento das linhas que definem esse mesmo terço, estando o fundamental da acção (a troca de olhares entre os personagens) limitado a essa zona da imagem. O primeiro plano apresenta-se ligeiramente desfocado o que contribui para destacar um inesperado e luxuriante fundo de folhas de palmeira com tons vivos e contrastantes com o tom acizentado da estátua. A esta mesma oposição cromática, poderemos adicionar uma outra, de natureza temática, veiculada pelo contraste entre um fundo "caótico" e quase tropical com as linhas clássicas e formais dos personagens, aspecto que poderá também induzir o observador para uma leitura mais vibrante do conjunto.



segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Bem vindos!

Bem vindos a este espaço!

Ao longo das próximas semanas aqui irão sendo publicados alguns dos trabalhos realizados no âmbito da frequência das diversas disciplinas que integram o curso de Mestrado em Expressão Gráfica e Audiovisual (ano lectivo 2011/2012), organizado pela Universidade Aberta

Pretende-se assim criar um espaço que sirva simultaneamente dois objectivos fundamentais: o de dar suporte aos trabalhos a realizar e, por outro lado, constituir um repositório que permita ilustrar o trajecto realizado nas diversas áreas do curso.