Estreado em 1920, nos dramáticos e conturbados anos que a Alemanha viveu após o fim da 1ª Guerra Mundial, o filme Das Cabinet des Dr. Caligari é hoje considerado, reconhecidamente, como um marco fundamental da influência expressionista no cinema alemão e uma obra-prima do cinema mundial.
Postulado formalmente por Wilhelm Worringer, em 1908, o Expressionismo opunha-se à lógica impressionista então vigente no mundo da arte, defendendo uma concepção do mundo alicerçada no confronto entre a necessidade de respeitar a essência dos objectos e a subjectividade, em que a forma não deriva da realidade exterior, mas da realidade interna, das profundezas da alma humana, tendo a abstracção por vector fundamental. Esta perspectiva afirmou-se progressivamente nas diversas áreas artísticas, mas só já muito tarde, perto do seu declínio, chegaria ao universo do cinema, aspecto que terá contribuído para o facto de não ser possível falar de uma escola expressionista do cinema alemão, nem nenhum dos seus intérpretes se assumir declaradamente como expressionista.
Todavia é com O Gabinete do Dr. Caligari que esta influência expressionista se manifesta de forma mais evidente no cinema, abrindo caminho para outras obras fundamentais dos anos 20, também de inspiração expressionista (ou “caligarista” conforme alguns autores preferem defini-la) de que se destacam O Golem (1920) de Paul Wegener, O Doutor Mabuse (1922) de Fritz Lang, Nosferatu (1922) de F. W. Murnau ou O Museu das Figuras de Cera (1924) de Paul Leni, nas quais os seus realizadores exprimem os estados de alma dos seus personagens através do simbolismo das formas e os intérpretes exteriorizam o patético com gestos bruscos e excessivos num espaço insólito, em cenários irreais, nos quais a iluminação intervém de forma dramática, com as sombras animando os objectos cenográficos, em atmosferas opressivas em que o horror, a alucinação, e o crime são temas recorrentes.
![]() |
| Robert Weine |
Não dispondo dos meios financeiros necessários a uma grande produção, o conhecido produtor Erich Pommer (1889-1966) perante a indisponibilidade de Fritz Lang, entregou a realização de O Gabinete do Dr. Caligari a Robert Weine (1873-1938), que decidiu apostar num tipo de filme completamente inovador, desenvolvendo o inquietante argumento[1] de Hans Janowitz (1890-1954) e Carl Mayer (1844-1944) num notável espaço cenográfico concebido por Hermann Warm, Walter Reimann e Walter Röhrig, no qual se movimentam actores estranhamente caracterizados que dão corpo a personagens que questionam a ordem, a hierarquia e a moral instituída, tudo servido através de uma narrativa não linear em que no final o espectador tem que reinterpretar toda a história.[2]
![]() |
| Imagens de O Gabinete do Dr. Caligari |
O filme gira em torno da descrição que um estudante, Francis (Friedrich Feher) faz a um seu conhecido dos estranhos acontecimentos por que ele e a sua noiva Jane (Lil Dagover) acabavam de viver. Um excêntrico personagem, o Dr. Caligari (Werner Kraus) chegara recentemente à feira anual da cidade de Holstenwall com uma estranha atracção: Cesare (Conrad Veidt) um sonâmbulo com o poder de prever o futuro. Estranhas mortes começam a ocorrer na cidade após a chegada do Dr. Caligari, entre os quais um amigo de Francis que interrogara Cesare acerca do seu futuro e vira anunciada a sua morte para a madrugada seguinte. Suspeitando do envolvimento de Caligari e Cesare na morte do seu amigo, Francis decide vigiá-los. Quando na noite seguinte, obedecendo a ordens de Caligari, Cesare se dirige à casa de Jane para a assassinar, ao vê-la dormindo arrepende-se e decide raptá-la. Alertados pela agitação de Jane, os habitantes da casa lançam-se na perseguição de Cesare que vendo-se perdido abandona Jane e acaba por morrer. Francis que entretanto perseguira Caligari até a um manicómio acaba por concluir que ele era afinal o seu director. Empenhado em desmascará-lo, Francis consegue convencer os enfermeiros do hospital da loucura do director através de referências que este fazia, no seu diário, a um monge italiano do século XI com o nome de Caligari que utilizava um sonâmbulo para assassinar as suas vítimas. Perante tal revelação o louco director acaba fechado numa cela do hospital psiquiátrico. No entanto, Francis ao terminar a sua história, encontra-se no pátio do manicómio que descrevera e junto a si estão Jane e também Cesare. Quando vê Caligari a atravessar o pátio, Francis tenta atacá-lo mas é prontamente detido pelos enfermeiros e encerrado na mesma cela em que antes estivera Caligari. Este deslocando-se à cela e vendo a perturbação do doente, tenta acalmá-lo e termina comentando para um dos enfermeiros a sua convicção de que brevemente lhe seria possível curar Francis da sua loucura.
Tal como nos outros filmes deste período o som está formalmente ausente. Contudo podemos intui-lo, percepcioná-lo através do ritmo contido na imagem, naquilo a que muito adequadamente João Mário Grilo designa por cinema-surdo. Poderemos hoje interrogar-nos como teriam Weine e os seus criativos lidado com a dimensão sonora, caso os meios técnicos necessários estivessem então disponíveis. Ter-se-íam vergado à estéril lógica do sincronismo sonoro ou teriam também utilizado o som para a criação de um imaginário sonoro em contraponto com a montagem visual, conforme sugerido por Eisenstein ou Pudovkin?[3] Certo é que a ausência de som, reforçando a ambiguidade de leitura do filme, contribui decisivamente para aumentar o mistério e a inquietude do seu ambiente. Livre das amarras impostas pelas palavras e pelos sons naturalistas, o Gabinete Dr. Caligari permanece como obra singular da produção cinematográfica de todos os tempos, sendo certamente um dos mais notáveis objectos estéticos da história do cinema.
__________________________________________________________________________
[1] - A cópia do guião pode ser consultada na ligação http://www.aellea.com/script/qCALIGARI.htm
[2] - Hermann Harm (um dos cenógrafos do Gabinete do Dr. Caligari), no 3º episódio da série Cinema Europe - The Unchained Camera, refere que o realizador Robert Weine, após analisar a forma como o filme deveria ser construído, terá afirmado: "The film must be crazy from the beginning in every way. Nothing must be normal and then it will work. Whether the press then tear us apart afterwards or whether it is a great success, we shall see. But either way it's worth it."
[3] - GRILO, João Mário, As Lições do Cinema, Lisboa, Edições Colibri, 2010




